domingo, 14 de maio de 2017

Mensagem Pai Antônio de Aruanda 14/05/2017

Uma escuridão atormentava nossa visão e alma. De repente, um estrondo seguido de silêncio. Por fim, muito tempo depois, um clarão enorme invadia nossos olhos.
Estávamos em terra estrangeira, a tão falada pelos brancos Terra Brasilis. Arrancados de nosso seio sagrado, um novo lugar para sobreviver foi imposto aos nossos corações. Privados da liberdade das matas de nossa mãe África, a escravidão pesou sobre nossos corpos.
Mutilados, chicoteados, vendidos como pedaço de carne pra trabalho, tivemos que aprender, a duras penas, a purificação da nossa alma através da dor. Tínhamos então duas opções: chamar essa nova terra de lar ou resistir até que a carne partisse e o sofrimento aliviado.
Guerreiros trabalhadores, vivemos nossa vida na simplicidade, dormindo em chão de terra batida e comendo a migalha dos nossos senhores. O verdadeiro alimento da alma vinha da lua que brilhava e do sol que aquecia. Nossa natureza era nossa religião. Nos cânticos sagrados, louvava-mos aos nossos deuses para que o sofrimento fosse passageiro. Sonhando com um mundo melhor, trazíamos um sorriso negro que vinha da força de nossas crenças e do poder de nossa alma.
Ao sairmos da matéria, percebemos que o sofrimento da carne lavava a alma e nos elevava até o Cristo, aquele ser iluminado de quem ouvíamos no tempo da escravidão.
Banhados pelo amor dele, percebemos que nossa missão era orientar os irmãos que estavam em terra que estavam confusos sobre sua sina num mundo frio e violento.
Vimos guerras acontecerem, lágrimas rolarem e dores na alma que doíam as nossas. Vendo nossos irmãos consumidos pela ganância humana.
Compadecendo de amor pelas almas perdidas e banhados pela luz do Cristo, compreendemos que somente o amor poderia libertar as mazelas sofridas na alma.
Enxergamos que a ganância e a obsessão por poder não vinham só de raça ou crédulo, mas sim de um vazio profundo que abalava seres perdidos que tentavam desesperadamente preencher o rombo de sua alma com significados passageiros.
Transcendemos o corpo e experimentamos a luz. Aquela luz que nos acolheu no desenlace terreno, aquela luz emitida por nossos antepassados no seio de nossa terra natal, a luz que transformava puro ódio em sabedoria e amor.
Assim, naquele pedaço de paraíso que se chamava Aruanda, aprendemos a ser eternos aprendizes e buscar dentro do amor a luz que habitava cada ser, por mais emperdenido que seja.
Escolhemos nossa roupagem da vida de sofrimento para acalmar o sofrimento dos filhos de terra e levar a mensagem do nazareno para seus corações.
Mesmo com roupa velha de sábio, sabemos que nossos corações permanecem jovens e inexperientes buscando o aprendizado diário no amor e na caridade do altíssimo.
Comparecemos com pretos, pobres, brancos, ricos, filhos de Deus e vemos que além da roupagem de carne mora um ponto infinito do amor do nosso Deus. 
Preto, velho, mas com amor no coração. Com aprendizado do sofrimento da carne foi possível esclarecer os mistérios mais profundos de nossa alma.
Preto velho sim, preto velho sempre. Agradeço diariamente a experiência conquistada e merecida pelo altíssimo. E com o coração banhado de amor, transmito a bênção dos céus à todos os filhos de fé na terra. Para que sejam esclarecidos e seus corações sejam guiados ao Cristo.
Na caminhada da vida o importante não é o destino, mas o percurso que se faz para atingir a linha de chegada. A beleza que reside no caminho é o maior aprendizado que podemos receber do criador.
Que as bênçãos estejam nos corações dos filhos e que a luz se faça presente no caminhar de cada um.
Pai Antônio de Aruanda

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